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Sou um simples pescador/ pesco sonhos nos mares da alma/ sonhos esquizofrênicos e psicodélicos/ transmutados em realidades desejadas/ à minha imagem e semelhança

sábado, 20 de novembro de 2021

As coisas não deram muito certo

 11 anos depois de minha primeira publicação, retornei.... As coisas não deram muito certo.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A LINGUAGEM E O TEXTO LITERÁRIO

Publicado em julho 18, 2009 por brocotelito
Escrevi um trabalho sobre a linguagem e o texto literário na disciplina de nome homônimo  da Especialização em Língua Portuguesa da UFPa. A versão que eu postei está sem revisão. Tirei excelente no trabalho e achei que outras pessoas poderiam gostar de dar uma olhadinha.
Contemporaneamente, vê-se a linguagem sofrer rudes golpes naquilo que lhe é peculiar –  a expressão – os quais a estão enfraquecendo em uma de suas propriedades mais singulares qual seja: a capacidade de distanciamento do homem sobre o mundo e, por conseguinte, o seu retorno ao mundo para transformá-lo; e se o homem não tem oportunidade de desenvolver e enriquecer a linguagem, torna-se incapaz não só de compreender o mundo, mas o que é muito pior, se a palavra (suporte da linguagem) que distingue o homem de todos os seres vivos, encontra-se enfraquecida na sua possibilidade de expressão, é o próprio homem que se desumaniza. Como fazer valer, então, a máxima de Guy de Maupassant: “Os grandes artistas são aqueles que fazem a humanidade aceitar sua ‘ilusão particular’”?
Será que ainda existe essa ilusão particular em um contexto em que as palavras, os pensamentos, as ideologias, a cultura que o indivíduo usa, pensa serem de sua autoria e fazerem parte de suas singularidades, não passam de mais um discurso de outrem, um discurso no qual ele é apenas porta-voz e aí dele se tentar sair de tal discurso para emitir o seu próprio discurso!!!
Com efeito, o texto literário é um dos suportes de acontecimento e de repetição diferente na estrutura descrita por Derrida, pois nessa estrutura, o momento em que se emoldura, recorta a linguagem, esse recorte não é a visão da realidade pura, e sim repetição com diferença de um pedacinho do universo heterogêneo, pois o signo trai a intenção de quem recorta, de maneira que, dependendo do nível de força com que os tentáculos do discurso dominador abraçam o enunciador, seu recorte pode ou não ter uma moldura que, embora repita e não traduza a realidade, seja “livre”.
Para confirmar que ainda existem pessoas fazendo arte, eis que surge uma banda islandesa chamada Sigur Rós a qual se utiliza da linguagem musical e da imagética de seus clips para subverter os tabus cristalizados no inconsciente coletivo. A banda mantém a riqueza da linguagem, além de mostrar ao mundo a sua ilusão particular de temas cotidianos, faz um recorte dessa heterogeneidade e dá uma moldura singular a grandes tabus por meio da linguagem musical, como síndrome de dawn, velhice, homossexualidadeetc, sem contudo parecer clichê e levantar bandeira de qualquer movimento. Sigur Rós consegue fazer o que Barthes chama de trapaça salutar:
(…) o signo é seguidor, gregário; em cada signo dorme este monstro: um estereótipo: nunca posso falar senão recolhendo aquilo que se arrasta na língua(…)mas a nós(…), só resta trapacear com a língua(…) Essa trapaça salutar (…) que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem eu a chamo: literatura.
(Barthes, p. 16, 1978)
Eles conseguem trapacear de forma tão brilhante quando cantam em uma língua chamada hopelandish, língua criada pelo próprio vocalista, a qual não possui sintaxe, morfologia ou fonologia. Quando indagado acerca de como as pessoas fariam para compreender a língua, ele responde que a semântica se dá  a partir da vontade das pessoas, ou seja, a imagem que elas quiserem atribuir aos signos será a imagem verdadeira. Dessa forma, a chave que está sempre em modificação é a mesma que te abre o caminho, ou os caminhos para entender as abstrações. Além disso, a banda consegue preservar aquilo que Ítalo Calvino chamou de leveza:
“(…)Minha confiança no futuro da literatura consiste em saber que há coisas que só a literatura com seus meios específicos nos pode dar (…)leveza(…)Cada vez que o reino humano me parece condenado ao peso, digo para mim mesmo(…)eu devia voar para outro espaço(…)Quero dizer que preciso mudar de ponto de observação, que preciso considerar o mundo sob outra ótica, outra lógica, outros meios de conhecimento e controle…
(Calvino, pp. 11 e 19, 2002)
O estilo de Sigur Rós veio para contradizer o sentido pretensamente verdadeiro, uma verdade única e definitiva, sem fazer isso abertamente, eles fazem um ataque a um discurso já estabelecido pela tradição, e esse estilo é capaz de ver e dizer uma outra história, uma outra cultura, uma outra sociedade, demonstrando uma boa  capacidade de ver diferente. Desta feita, eles vêm também para nos mostrar a leveza de suas melodias, de suas letras, de sua poesia.
Dentre as várias canções do álbum Agaetis Byrjun a que se analisará é uma das mais contundentes, brilhantes, profundas, a qual não pode estar desatrelada das imagens que compõem o clip, que soa a uma estranha e cativante mistura de vários ritmos e não soam a nada disso.
De quando em quando o vocalista senta-se no chão, de guitarra no colo e vira as costas ao público, como se estivesse sendo consumindo por uma força estranha e, com um arco de violoncelo na mão direita saca sons mágicos acompanhado de uma voz distorcida do interior da guitarra. No baixo, Georg Holm usa uma baqueta para marcar o ritmo louco e alucinante em espiral . A bateria de Orril  fascina ora por detrás das teclas, ora na segunda guitarra ora na flauta, como em Olsen Olsen. A acompanhá-los têm quatro garotas, um quarteto de cordas, três violinos e um violoncelo,  primeiro estranha-se, depois entranha-se, as canções que falam de banalidades, paisagens e quotidiano, vibrantes e cativantes e, para quem não entende islandês ou hopelandish, não faz falta perceber as letras, apenas a melodia importa, algo que sugere o nostálgia, a depressão, o angustiante. Como se ao fechar os olhos estivéssemos ouvindo anjos cantando.  A música do Sigur Rós quer-se para adormecer e acordar e faz desejar ser possível agarrar tudo o que deles emana com uma mão e guardá-lo num bolso bem junto de nós. Para sempre. Eterno. Soberbo. Belo.
Um dia perfeito para bombardeamentos
Deslizo para a frente
através da minha mente,
penso metade do tempo
ao contrário.
Vejo-me a cantar
A canção que escrevemos juntos.
Tivemos um sonho,
tivemos tudo.
Fomos até ao fim do mundo,
fomos à procura.
Subimos arranha-céus
que depois explodiram,
já não havia paz.
Perdi o balanço e caí
para trás
Deslizo para a frente
através da minha mente,
volto sempre ao mesmo sítio.
Silêncio
sem resposta.
A melhor coisa que Deus criou
é haver todos os dias um novo dia
Vidrar vel til loftarasa
ég læt mig líða áfram
í gegnum hausinn
hugsa hálfa leið
afturábak
sé sjálfan mig syngja fagnaðarerindið
sem við sömdum saman
við áttum okkur draum
áttum allt
við riðum heimsendi
við riðum leitandi
klifruðum skýjakljúfa
sem síðar sprungu upp
friðurinn úti
ég lek jafnvægi
dett niður
alger þögn
ekkert svar
en það besta sem guð hefur skapað
er nýr dagur
http://letras.terra.com.br/sigur-ros/33969/
http://letras.terra.com.br/sigur-ros/392293/
A letra da música acima, aliada ao clip, torna-se bem mais acessível. O clip fala de uma típica história de dois adolescentes descobrindo a sexualidade que vivem as vicissitudes de sua condição em uma sociedade preconceituosa. O que chama a atenção no clip é a simbologia de dois bonecos. Um dos adolecentes leva em um carrinho dois bonecos, quando o seu pai percebe isso, corre até o menino, arranca os bonecos de sua mão e os lança para o rio. A imagem dos bonecos voando em câmera lenta é a mais perfeita imagem de leveza que Calvino sugere em sua obra.  A figura dos bonecos só retorna no final do clip, quando em um jogo de futebol, onde estão presentes as mais pétreas instiuições como a igreja, a famíla, a sociedade as quais representam todo o pesadume presente na história, e quando os dois meninos partivipam de um lance e fazem o gol, jogam-se no chão e se beijam provocando a reação lugar-comum e pesada das instiuições presentes para esses casos, o meninos, então, são separados e um deles olha para o céu e lembra da cena dos dois bonecos sendo lançados uma sena serena e leve. Essa metáfora traduz o que a sociedade faz com os homessexuais, extirpa-os e os lança para longe como se eles fossem um peso, mas a serenidade como eles voam revelam a leveza de suas atitudes, pois o pesadume está mesmo é nas estruturas pesadas das instituições.
Nesse ponto começam a surgir as dúvidas: talvez Sigur Rós não queira falar de suas ilusões particulares, talvez queira apenas fazer música, divertir-se ou subverter a ordem dos discursos presentes.O fato é que eles foram procurados por gravadoras americanas que queriam que eles assinassem contratos milionários e passassem a cantar em inglês. Um típico exemplo de um discurso de poder por meio da língua. Achar que uma coisa só é boa quando é feita dentro dos padrões que as legitimem , a língua é uma dessas formas de legitimação, e Sigur Rós está fazendo algo interessante, todavia está fadado ao esquecimento por estar utilizando uma língua menor.
Pode-se dizer que a terceira força da literatura, sua força propriamente semiótica, consiste, em jogar com os signos em vez de destruí-los, em coloca-los numa maquinaria de linguagem cujos breques e travas de segurança arrebentaram, em suma, em instituir no próprio seio da linguagem servil uma verdadeira heteronímia das coisas.
(Barthes, pp. 28-29, 1978)
Com efeito, Sigur Rós quer apenas fazer a sua música, não quer sua expressão tolhida, submetida ao jugo de uma tradição ou ao jugo de uma língua maior, sob pena de sua arte ser castrada de sua singularidade ser mediocrizada, um verdadeiro ultraje à criação literária, musical etc. A força presente em seu trabalho não pode ser enfraquecido apenas porque o mercado quer ganhar dinheiro e as pessoas “querem” ouvir música em inglês.
Sigur Rós apenas fornece o remédio, já que o artefato discursivo presente em toda manifestação da linguagem é um mecanismo de dominação e libertação, como a pharmacon de Aristóteles, o remédio de Sigur Rós serve tanto para curar, quanto para envenenar; serve para o bem e para o mal; serve para libertar e para aprisionar, basta que para que isso  o sujeito que busca  o remédio esteja disposta a fazer a sua escolha. Essa escolha tem sempre uma  vertente mítica e libertadora, e a despeito de uma tradição dominadora que quer estragar esse remédio com o seu discurso, Sigur Rós segue firme em seu discurso louco e inserido em uma tradição menor.
Sigur Rós, contudo emite o seu discurso periférico, que de fato não se opõem à tradição, mas se prende a alguma tradição menor embora proponha-se como autêntico, na voz de seus enunciadores (pois em geral é assim que eles se propõem), em verdade enuncia-se a partir de uma tradição menor. É desvendar essa tradição menor, é a chave do tamanho para se alcançar a obra desses islandeses, uma obra que pode parecer fora do lugar comum, sem os clichês desse poder gregário que quer utilizar e  tornar a expressão, a linguagem servis.
Talvez em inglês a sonoridade, as rimas, a semântica não fosse suficientemente produtiva ou talvez Sigur Rós queira apenas emitir o seu discurso de loucura como fala Foucault:
(…)o louco é aquele cujo discurso não pode circular como o dos outros: pode ocorrer que a sua palavra seja considerada nula e não seja acolhida, não tendo verdade nem importância, não podendo testemunhar na justiça, não podendo autenticar um ato.
(Foucault,pp.10-11,1970)
Sigur Rós não tem medo de emitir o seu discurso de loucura. Eles querem que as pessoas ouçam em hopelandish um discurso  metafórico, leve o que está no lugar periférico, em uma língua menor, que nega uma tradição. Fato que nos provoca a reflexão: quem é mais verdadeiro, Dom Quixote ou Pancho Pança. O discurso do louco que provoca risos, mas que faz os signos se movimentarem; ou um discurso gregário, castrado, massificado?.
A fala de Guy de Maupassant mostra que a literatura é um processo de construção da realidade, e essa realidade selecionada pelo artista, entre as várias experiências humanas, revela aquela que para ele expressa uma visão pessoal do mundo.
Se é que há as duas formas de o homem sintonizar-se com o mundo: uma dentro e outra fora de si, em cuja de dentro  muito pequena se considerarmos as dimensões do corpo às vezes entra em choque com a de fora, incomensurável se observarmos o país, o mundo, o sistema solar, a galáxia. Evidentemente que a de dentro, embora seja limitada pelo corpo, é tão infinita quanto a de fora, pois é a  mente que transcende o subsolo da alma. Ao passo que a de fora, apesar de ser muito grande, é restrita pelo meio que a permeia. Já dizia Blaise Pascal: “toda a nossa dignidade reside no pensamento”. É através dele que devemos nos elevar, e não através do tempo e do espaço que não podemos preencher. Por isso Sigur Rós escolhe ser louco, rejeita o que se arrasta na linguagem criando uma nova língua, inclusive, recorta o mundo heterogêneo a partir de suas experiências, não se dobra diante do discurso do poder, tudo isso para salvar a leveza, algo que somente a literatura nos pode legar.
Referências Bibliográficas:
BARTHES, Roland.Aula: aula inaugural da cadeira de semiologia literária do College de France.São Paulo: Editora Cultrix. 1978.
CALVINO, Ítalo. Seis propostas para o novo milênio. São Paulo: Companhia das Letras. 2002.
DERRIDA, Jacques. A escritura e a diferença. São Paulo: Perspectiva. 1971.
FOUCAULT, Michel. A ordem dos discursos: aula inaugural do College de France. São Paulo: Edições Loyola. 1996.
SANTAELLA, Lúcia. Teoria geral dos signos: semiose e autogeração. São Paulo: Ática. 1995.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Me erra Universo



Incrível como o universo se organiza para cumprir a sua lei. Chaga a ser absurdo, incoerente do que ele é capaz de fazer! Já faz algum tempo que eu percebi que nas engrenagens do universo, eu sou uma pequeníssima engrenagem que tem de girar sem nunca se apaixonar pela outra engrenagem. Ah, que metáfora mais sem graça é essa minha. Se bem que sem graça era o que meu último grande amor falava sobre mim:
" mas que sem gracice!!! dizia.
E hoje, de madrugada. Depois de acordar e notar a ausência daquela magreza em minha cama, sem os seus travesseirinhos marrons, e suas frases bobonas: “thury thero O.o” comecei a pensar como o universo estragava todos os meus amores. Lembro da primeira menina por quem eu me apaixonei... O nome dela era Adilza, eu a vi uma vez, em uma aula de sábado, quando a professora reunia todas as sétimas séries do Colégio Pedro Teixeira. Eu fiquei encantado, e todos os sábados eu esperava anciosamente pela aula (fato meio estranho para um adolescente de 14 anos, que não era muito fã de matemática).
Eu só a via no sábado porque ao longo da semana eu não podia, era do tipo tímido, que não interagia, sofria bullying, então era preferível ficar na sala durante o intervalo.
Naquele ano, 1993, eu só a via no sábado. Ela era o tipo de menina que eu havia idealizado: calma, simples, humilde etc. Nunca tive coragem de chegar nela e o ano terminou, eu quase fui reprovado na dita cuja da matemática, sabia que Adilza morava no mesmo bairro, mas eu quase não saía pra lugar nenhum. Só fui rever essa garota no ano seguinte, na oitava série, por ironia do destino, de Deus, ou do universo, como eu penso hoje, Adilza era da minha turma aquele ano. Eu estava com um misto de medo e alegria, pois teria o ano todinho para aprender matemátia?, não, para conquistar Adilza.
Mas como fazer isso se eu não era popular, se eu não era bonito, se eu não era bom nos esportes, se.... Nesse dia tive a brilhante idéia: Me tornaria o garoto mais inteligente da turma, tiraria as melhores notas, impressionaria Adilza, eu tinha motivação e foi o que aconteceu. Fiquei mais confiante, comecei a ganhar o respeito de todos pois só tirava as melhores notas em todas as matérias e é obvio que havia chamado a atenção da Adilza também.
Eu colocava bilhetinhos apaixonados e cartões melosos dentro do caderno dela e assinava BSS, as iniciais do meu nome. Sabia que ela, sendo mulher, certamente teria curiosidade para checar na lista quem tinha o nome que começava com aquelas iniciais. Eu deixei de lado meus rocks para ouvir músicas românticas no rádio, oscilava os programas good times e amor sem fim de duas estações diferentes, perdia a fome, pensava nela todo instante.
Um dia eu resolvi falar com ela, quase no final do ano, acho que era dezembro, o ano estava acabando, minhas médias eram ótimas, mas na ingenuidade de adolescente, eu não havia pensado na possibilidade de ser rejeitado.
Adilza era uma menina reservada, só tinha uma amiga de quem não desgrudava, eu havia tentado me aproximar várias vezes, mas ela nunca estava sem essa amiga.
Um dia, eu decidi, vai ser hoje. Comprei uma rosa perfumada, elaborei um roteiro da conversa, decorei esse roteiro, cheguei cedo no colégio, sentei no meu lugar de costume. Sabia que ela chegava cedo também.
Quando ela entrou, eu gelei, esquentei, fiquei sem vida por uns instantes e quando ela passou por mim, ela estava sozinha, ela olhou na minha direção e soltou a frase que me atingiu como um dardo, traspassando minh’alma:
“sujou” ela disse. E logo atrás, lá vinha a amiga dela que completou a frase: “geral”
Eu morri mais uma vez naquela carteira, Escondi a rosa na mochila (mais tarde dei essa rosa para a minha mãe, ainda bem que a mamis nunca ficou sabendo que a rosa teria sido pré-rejeitada por uma menina chamada Adilza) E a frase cantava em uníssono em minha cabeça:
“Sujou....geral”.
Mais tarde fiquei sabendo que a amiga dela gostava de mim e fazia de tudo pra Adilza me ter antipatia. Uma maneira bem sagaz desse universo organizar seus planos de me manter uma engrenagenzinha solitária. Nunca troquei uma só palavra com ela, nunca. E foi assim, que aos 15 anos, eu perdi, deixei de ganhar, sei lá, enfim, que meus planos no amor foram frustrados, meu primeiro amor.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

A linguagem e o texto literário

Escrevi um trabalho sobre a linguagem e o texto literário na disciplina de nome homônimo da Especialização em Língua Portuguesa da UFPa. A versão que eu postei está sem revisão. Tirei excelente no trabalho e achei que outras pessoas poderiam gostar de dar uma olhadinha.

Contemporaneamente, vê-se a linguagem sofrer rudes golpes naquilo que lhe é peculiar – a expressão – os quais a estão enfraquecendo em uma de suas propriedades mais singulares qual seja: a capacidade de distanciamento do homem sobre o mundo e, por conseguinte, o seu retorno ao mundo para transformá-lo; e se o homem não tem oportunidade de desenvolver e enriquecer a linguagem, torna-se incapaz não só de compreender o mundo, mas o que é muito pior, se a palavra (suporte da linguagem) que distingue o homem de todos os seres vivos, encontra-se enfraquecida na sua possibilidade de expressão, é o próprio homem que se desumaniza. Como fazer valer, então, a máxima de Guy de Maupassant: “Os grandes artistas são aqueles que fazem a humanidade aceitar sua ‘ilusão particular’”?

Será que ainda existe essa ilusão particular em um contexto em que as palavras, os pensamentos, as ideologias, a cultura que o indivíduo usa, pensa serem de sua autoria e fazerem parte de suas singularidades, não passam de mais um discurso de outrem, um discurso no qual ele é apenas porta-voz e aí dele se tentar sair de tal discurso para emitir o seu próprio discurso!!!

Com efeito, o texto literário é um dos suportes de acontecimento e de repetição diferente na estrutura descrita por Derrida, pois nessa estrutura, o momento em que se emoldura, recorta a linguagem, esse recorte não é a visão da realidade pura e, sim repetição com diferença de um pedacinho do universo heterogêneo, pois o signo trai a intenção de quem recorta, de maneira que, dependendo do nível de força com que os tentáculos do discurso dominador abraçam o enunciador, seu recorte pode ou não ter uma moldura que, embora repita e não traduza a realidade, seja “livre”.

Para confirmar que ainda existem pessoas fazendo arte, eis que surge uma banda islandesa chamada Sigur Rós a qual se utiliza da linguagem musical e da imagética de seus clips para subverter os tabus cristalizados no inconsciente coletivo. A banda mantém a riqueza da linguagem, além de mostrar ao mundo a sua ilusão particular de temas cotidianos, faz um recorte dessa heterogeneidade e dá uma moldura singular a grandes tabus por meio da linguagem musical, como síndrome de dawn, velhice, homossexualismo etc, sem contudo parecer clichê e levantar bandeira de qualquer movimento. Sigur Rós consegue fazer o que Barthes chama de trapaça salutar:

(…) o signo é seguidor, gregário; em cada signo dorme este monstro: um estereótipo: nunca posso falar senão recolhendo aquilo que se arrasta na língua(…)mas a nós(…), só resta trapacear com a língua(…) Essa trapaça salutar (…) que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem eu a chamo: literatura.

(Barthes, p. 16, 1978)

Eles conseguem trapacear de forma tão brilhante quando cantam em uma língua chamada hopelandish, língua criada pelo próprio vocalista, a qual não possui sintaxe, morfologia ou fonologia. Quando indagado acerca de como as pessoas fariam para compreender a língua, ele responde que a semântica se dá a partir da vontade das pessoas, ou seja, a imagem que elas quiserem atribuir aos signos será a imagem verdadeira. Dessa forma, a chave que está sempre em modificação é a mesma que te abre o caminho, ou os caminhos para entender as abstrações. Além disso, a banda consegue preservar aquilo que Ítalo Calvino chamou de leveza:

“(…)Minha confiança no futuro da literatura consiste em saber que há coisas que só a literatura com seus meios específicos nos pode dar (…)leveza(…)Cada vez que o reino humano me parece condenado ao peso, digo para mim mesmo(…)eu devia voar para outro espaço(…)Quero dizer que preciso mudar de ponto de observação, que preciso considerar o mundo sob outra ótica, outra lógica, outros meios de conhecimento e controle…

(Calvino, pp. 11 e 19, 2002)

O estilo de Sigur Rós veio para contradizer o sentido pretensamente verdadeiro, uma verdade única e definitiva, sem fazer isso abertamente, eles fazem um ataque a um discurso já estabelecido pela tradição, e esse estilo é capaz de ver e dizer uma outra história, uma outra cultura, uma outra sociedade, demonstrando uma boa capacidade de ver diferente. Desta feita, eles vêm também para nos mostrar a leveza de suas melodias, de suas letras, de sua poesia.

Dentre as várias canções do álbum Agaetis Byrjun a que se analisará é uma das mais contundentes, brilhantes, profundas, a qual não pode estar desatrelada das imagens que compõem o clip, que soa a uma estranha e cativante mistura de vários ritmos e não soam a nada disso.

De quando em quando o vocalista senta-se no chão, de guitarra no colo e vira as costas ao público, como se estivesse sendo consumindo por uma força estranha e, com um arco de violoncelo na mão direita saca sons mágicos acompanhado de uma voz distorcida do interior da guitarra. No baixo, Georg Holm usa uma baqueta para marcar o ritmo louco e alucinante em espiral . A bateria de Orril fascina ora por detrás das teclas, ora na segunda guitarra ora na flauta, como em Olsen Olsen. A acompanhá-los têm quatro garotas, um quarteto de cordas, três violinos e um violoncelo, primeiro estranha-se, depois entranha-se, as canções que falam de banalidades, paisagens e quotidiano, vibrantes e cativantes e, para quem não entende islandês ou hopelandish, não faz falta perceber as letras, apenas a melodia importa, algo que sugere o nostálgia, a depressão, o angustiante. Como se ao fechar os olhos estivéssemos ouvindo anjos cantando. A música do Sigur Rós quer-se para adormecer e acordar e faz desejar ser possível agarrar tudo o que deles emana com uma mão e guardá-lo num bolso bem junto de nós. Para sempre. Eterno. Soberbo. Belo.

Um dia perfeito para bombardeamentos
Deslizo para a frente
através da minha mente,
penso metade do tempo
ao contrário.
Vejo-me a cantar
A canção que escrevemos juntos.
Tivemos um sonho,
tivemos tudo.
Fomos até ao fim do mundo,
fomos à procura.
Subimos arranha-céus
que depois explodiram,
já não havia paz.
Perdi o balanço e caí
para trás
Deslizo para a frente
através da minha mente,
volto sempre ao mesmo sítio.
Silêncio
sem resposta.
A melhor coisa que Deus criou
é haver todos os dias um novo dia

Vidrar vel til loftarasa

ég læt mig líða áfram
í gegnum hausinn
hugsa hálfa leið
afturábak
sé sjálfan mig syngja fagnaðarerindið
sem við sömdum saman
við áttum okkur draum
áttum allt
við riðum heimsendi
við riðum leitandi
klifruðum skýjakljúfa
sem síðar sprungu upp
friðurinn úti
ég lek jafnvægi
dett niður
alger þögn
ekkert svar
en það besta sem guð hefur skapað
er nýr dagur
http://letras.terra.com.br/sigur-ros/33969/

http://letras.terra.com.br/sigur-ros/392293/

A letra da música acima, aliada ao clip, torna-se bem mais acessível. O clip fala de uma típica história de dois adolescentes homossexuais que vivem as vicissitudes de sua condição em uma sociedade preconceituosa. O que chama a atenção no clip é a simbologia de dois bonecos. Um dos adolecentes leva em um carrinho dois bonecos, quando o seu pai percebe isso, corre até o menino, arranca os bonecos de sua mão e os lança para o rio. A imagem dos bonecos voando em câmera lenta é a mais perfeita imagem de leveza que Calvino sugere em sua obra. A figura dos bonecos só retorna no final do clip, quando em um jogo de futebol, onde estão presentes as mais pétreas instiuições como a igreja, a famíla, a sociedade as quais representam todo o pesadume presente na história, e quando os dois meninos partivipam de um lance e fazem o gol, jogam-se no chão e se beijam provocando a reação lugar-comum e pesada das instiuições presentes para esses casos, o meninos, então, são separados e um deles olha para o céu e lembra da cena dos dois bonecos sendo lançados uma sena serena e leve. Essa metáfora traduz o que a sociedade faz com os homessexuais, extirpa-os e os lança para longe como se eles fossem um peso, mas a serenidade como eles voam revelam a leveza de suas atitudes, pois o pesadume está mesmo é nas estruturas pesadas das instituições.

Nesse ponto começam a surgir as dúvidas: talvez Sigur Rós não queira falar de suas ilusões particulares, talvez queira apenas fazer música, divertir-se ou subverter a ordem dos discursos presentes.O fato é que eles foram procurados por gravadoras americanas que queriam que eles assinassem contratos milionários e passassem a cantar em inglês. Um típico exemplo de um discurso de poder por meio da língua. Achar que uma coisa só é boa quando é feita dentro dos padrões que as legitimem , a língua é uma dessas formas de legitimação, e Sigur Rós está fazendo algo interessante, todavia está fadado ao esquecimento por estar utilizando uma língua menor.

Pode-se dizer que a terceira força da literatura, sua força propriamente semiótica, consiste, em jogar com os signos em vez de destruí-los, em coloca-los numa maquinaria de linguagem cujos breques e travas de segurança arrebentaram, em suma, em instituir no próprio seio da linguagem servil uma verdadeira heteronímia das coisas.

(Barthes, pp. 28-29, 1978)

Com efeito, Sigur Rós quer apenas fazer a sua música, não quer sua expressão tolhida, submetida ao jugo de uma tradição ou ao jugo de uma língua maior, sob pena de sua arte ser castrada de sua singularidade ser mediocrizada, um verdadeiro ultraje à criação literária, musical etc. A força presente em seu trabalho não pode ser enfraquecido apenas porque o mercado quer ganhar dinheiro e as pessoas “querem” ouvir música em inglês.

Sigur Rós apenas fornece o remédio, já que o artefato discursivo presente em toda manifestação da linguagem é um mecanismo de dominação e libertação, como a pharmacon de Aristóteles, o remédio de Sigur Rós serve tanto para curar, quanto para envenenar; serve para o bem e para o mal; serve para libertar e para aprisionar, basta que para que isso o sujeito que busca o remédio esteja disposta a fazer a sua escolha. Essa escolha tem sempre uma vertente mítica e libertadora, e a despeito de uma tradição dominadora que quer estragar esse remédio com o seu discurso, Sigur Rós segue firme em seu discurso louco e inserido em uma tradição menor.

Sigur Rós, contudo emite o seu discurso periférico, que de fato não se opõem à tradição, mas se prende a alguma tradição menor embora proponha-se como autêntico, na voz de seus enunciadores (pois em geral é assim que eles se propõem), em verdade enuncia-se a partir de uma tradição menor. É desvendar essa tradição menor, é a chave do tamanho para se alcançar a obra desses islandeses, uma obra que pode parecer fora do lugar comum, sem os clichês desse poder gregário que quer utilizar e tornar a expressão, a linguagem servis.

Talvez em inglês a sonoridade, as rimas, a semântica não fosse suficientemente produtiva ou talvez Sigur Rós queira apenas emitir o seu discurso de loucura como fala Foucault:

(…)o louco é aquele cujo discurso não pode circular como o dos outros: pode ocorrer que a sua palavra seja considerada nula e não seja acolhida, não tendo verdade nem importância, não podendo testemunhar na justiça, não podendo autenticar um ato.

(Foucault,pp.10-11,1970)

Sigur Rós não tem medo de emitir o seu discurso de loucura. Eles querem que as pessoas ouçam em hopelandish um discurso metafórico, leve o que está no lugar periférico, em uma língua menor, que nega uma tradição. Fato que nos provoca a reflexão: quem é mais verdadeiro, Dom Quixote ou Pancho Pança. O discurso do louco que provoca risos, mas que faz os signos se movimentarem; ou um discurso gregário, castrado, massificado?.

A fala de Guy de Maupassant mostra que a literatura é um processo de construção da realidade, e essa realidade selecionada pelo artista, entre as várias experiências humanas, revela aquela que para ele expressa uma visão pessoal do mundo.

Se é que há as duas formas de o homem sintonizar-se com o mundo: uma dentro e outra fora de si, em cuja de dentro muito pequena se considerarmos as dimensões do corpo às vezes entra em choque com a de fora, incomensurável se observarmos o país, o mundo, o sistema solar, a galáxia. Evidentemente que a de dentro, embora seja limitada pelo corpo, é tão infinita quanto a de fora, pois é a mente que transcende o subsolo da alma. Ao passo que a de fora, apesar de ser muito grande, é restrita pelo meio que a permeia. Já dizia Blaise Pascal: “toda a nossa dignidade reside no pensamento”. É através dele que devemos nos elevar, e não através do tempo e do espaço que não podemos preencher. Por isso Sigur Rós escolhe ser louco, rejeita o que se arrasta na linguagem criando uma nova língua, inclusive, recorta o mundo heterogêneo a partir de suas experiências, não se dobra diante do discurso do poder, tudo isso para salvar a leveza, algo que somente a literatura nos pode legar.

Referências Bibliográficas:

BARTHES, Roland.Aula: aula inaugural da cadeira de semiologia literária do College de France.São Paulo: Editora Cultrix. 1978.

CALVINO, Ítalo. Seis propostas para o novo milênio. São Paulo: Companhia das Letras. 2002.

DERRIDA, Jacques. A escritura e a diferença. São Paulo: Perspectiva. 1971.

FOUCAULT, Michel. A ordem dos discursos: aula inaugural do College de France. São Paulo: Edições Loyola. 1996.

SANTAELLA, Lúcia. Teoria geral dos signos: semiose e autogeração. São Paulo: Ática. 1995.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O Louco

É curioso eu ser um estudante do “núcleo duro” da lingüística, mas sempre me pegar a encontrar poesia em algumas frases que rapidamente se transformam em versos. Hoje, durante a apresentação de seminário de uma amiga, quando ela falava sobre os prefixos relacionais na língua Parkatêjê que possuem funções diferentes aos prefixos da língua Apãniekrá, línguas irmãs. Em dado momento alguém questionou algo sobre esses prefixos e ela respondeu: “não é a mesma coisa...” Pronto, essa foi a frase poema ou um verso perdido em meio a tantos termos complicados da lingüística.

Já faz algum tempo que li a tradução de um poema alemão (não lembro o nome do autor), só sei que no poema essa frase era um verso, eu gostei tanto que até hoje quando alguém fala; “não é a mesma coisa”, automaticamente o poema me vem à cabeça e sinto vontade de o recitar. Não lembro muito bem como era em alemão, mas em português era assim:

Eu e tu

Tu e eu

Não é a mesma coisa

Nós conquistamos a vitória

E você me vence

Ich und Du

Du und ich

Ist nicht dasselbe

Gewannen wir Sieg

Mich und Sie gewinnen

Fico imaginando qual seria a reação da turma se eu, no meio da apresentação, levantasse e recitasse esse poema e, depois, sentasse-me como se nada tivesse acontecido. Hoje eu quase fiz isso, mas como minha imagem já está meio complicada – sempre durmo nas aulas, por mais interessante que seja o tema. Acho que devo mesmo me controlar e deixar que a poesia que existe nas pequenas coisas ressoe apenas dentro de mim. Devo, portanto, rezar para que ninguém falar a frase-verso – “não é a mesma coisa”.

Opostos


Era noite emiuiuiuiuid minha vida:

Aves soturnas me agouravam,

Sombras se escondiam em mim,

Vento frio me resfriava;

Mas te conheci

E tua manhã misturou-se

Com a minha noite,

Os opostos se encontraram num contraste

E formaram uma bela dupla -

Eu não deixei de ser noite,

Tu ainda és manhã.

Só mesclamos nossos egos

Como o café com leite,

O preto e o branco,

O sol e a lua.

B. de Sales

Motivo para ficar em Belém




Hoje acordei com um misto de alegria e nostalgia. Estou querendo ir embora de Belém há bastante tempo, entretanto queria ficar, atitude bem típica de um libriano - indecisão.
Fiquei ouvindo a mesma música: Lost do Coldplay a manhã todinha. A letra tem muito a ver com o momento que estou vivendo, um momento meio romântico misturado à abstração maluca das teorias lingüísticas. As três imagens representam bem tudo o que eu estou vivendo. Um momento de dúvida de indecisão, de estar perdido mesmo... ai ai , que vida!!!
Lost
Just because I'm losing
Doesn't mean I'm lost
Doesn't mean I'll stop
Doesn't mean I'm across

Just because I'm hurting
Doesn't mean I'm hurt
Doesn't mean I didn't get what I deserved
No better and no worse

I just got lost!
Every river that I tried to cross
Every door I ever tried was locked
Ohhh and I'm just waiting 'til the shine wears off

You might be a big fish
In a little pond
Doesn't mean you've won
'Cause along may come
A bigger one

And you'll be lost!
Every river that you tried to cross
Every gun you ever held went off
Ohhh and I'm just waiting until the firing's stopped
Ohhh and I'm just waiting 'til the shine wears off

Ohhh and I'm just waiting 'til the shine wears off
Ohhh and I'm just waiting 'til the shine wears off

domingo, 11 de abril de 2010

Quem pode falar sobre o ser?

Quem pode falar sobre o ser?
Benedito de Sales (Marcelo) – Graduando em Filosofia e Mestrando em Lingüística – UFPa.
Escrevi este texto ao me despedir do pensionato no qual eu morava

Quando decidi ir embora daqui, pensei que poderia também revelar uma verdade àqueles que acham que podem falar algo sobre qualquer elemento material ou imaterial presente neste mundo. Sinto muito informar a essas pessoas, mas não é possível fazer isso! Não há como sopesar o ser, sem mergulhar nesse ser e viver essa experiência no silêncio sem qualquer esboço de pensamento, pois qualquer manifestação da linguagem, cai-se no erro de achar que nossa verbalização é verdadeira, quando ela não passa de representação.
Com efeito, as línguas são compostas de signos convencionais e arbitrários e, por conta disso, tudo o que se fala ou pensa não passa de representação, o ser do qual se fala, não é mais o ser original, mas o ser representado, com base em idiossincrasias do falante; além disso, a relação de poder que tem como suporte a língua, abraça com seus longos tentáculos a maioria das pessoas e o gregarismo da repetição os faz falar apenas por meio daquilo que se arrasta na língua: os estereótipos, os lugares-comuns, os clichês, e tudo não passa de pura doxa – opinião. Dessa forma, todos devem concordar que falar sobre o ser é perda de tempo, quando se utiliza de linguagem e ainda age como suporte de um discurso controlador.
Tudo o que falamos, pensamos, refletimos, são apenas “micagens”que servem para manutenção do status quo. Na verdade, só se fala, pensa ou reflete sobre algo, a partir daquilo que o discurso controlador permite que seja falado, pensado ou refletido. Com base nisso tudo, antes de se falar algo sobre alguém, antes de se pseudosopesar alguém e, sobretudo, antes de se metadiscursar sobre alguém, é preciso livrar-se da linguagem gregária e dos discursos autoritários de outrem.
À guisa de conclusão, eis o motivo pelo qual vivi com indiferença todo esse tempo aqui, pois era ultrajante à minha intelectualidade entrar em contato com uma linguagem gregária, estereotipada e vítima de discursos de poder. Assumi, portanto a condição sine qua non da prudência: um ser superior à alegria e à tristeza, ao medo e à compaixão, ao orgulho e à humilhação; um ser superior a todas as coisas, que não odeia ou ama ninguém, mas aceita, também, com indiferença o repúdio total ou o afeto dos outros, pois o que é demasiado importante para a maioria, não possui qualquer interesse a quem é realmente prudente, um ser inacessível, algo realmente desejável.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Um poeta revoltado


Para quem já teve a oportunidade de ler a obra toda - Sintonia com o mundo -, observou um tiquinho de revolta, subversão e luta incessante contra os lugares-comuns, o clichê que o (nem sei se posso me intitular poeta) poeta deixou transparecer em seus versos brancos. Para exemplificar isso, selecionei alguns poeminhas revoltados. O primeiro reflete um sonho que eu tinha de ir a minha colação de grau com uma sandália de dedo, coisa que não aconteceu porque não fui à cerimônia, mas fui a uma ópera no glamouroso Teatro da Paz, símbolo da burguesia. Entrei no lugar com o figurino de praxe, mas levei uma bermuda e uma camiseta em uma mochila hehehe, na saída fui rápido ao banheiro e troquei de roupa, foi um escândalo. Todos me olhavam como se vissem um ET. Giacomo Puccini e a sua Madamma Butterfly que me perdoem nesse dia, mas precisava fazer aquilo. Ah! os poemas! Espero que gostem!

Escandalizando

Ópera de tênis e jaqueta jeans,

Formatura de sandália de dedo,

Primeira classe sem classe.

Um subversivo dos convencionalismos.



Espólio perdido

Não busco felicidade:

Apartamento sofisticado,

Profissão de prestígio

Mulher bonita emancipada.

Não sei também se os filhos virão,

Provavelmente não!

Sem um óvulo é impossível

Meus espermatozóides que o digam.

Nada disso é importante..

Só quero que tratem bem

De meu espólio perdido

Que deixarei por aí

Em papéis ordinários

Para que a posteridade conheça

O revoltado que fui.



Aos que me lêem

Não me venham perguntar porque escrevo assim.

Não escrevo pra vocês, é pra mim é o que sinto,

Não lhes devo explicação dos infortúnios de meus versos.

Nem eu sei de verdade se sou eu ou os outros que sentem.


Não me venham criticar por não me prender a fórmulas,

Sou surrealista isso eu sei e com orgulho não minto.

Não me queiram entender por teorias eugorítmicas,

Não há rimas nos meus versos para causar asco aos que são clássicos.


Não me queiram conhecer através destes versos esparsos,

Sinto muito informá-los não sou eu que os escrevo,

São os outros que me perseguem num balé esquizofrênico,

Sou apenas um mensageiro do subsolo mórbido da alma.


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

A outra pessoa


Uma vez conversei com uma pessoa sobre alguns poeminhas que escrevo e citei "a outra pessoa", um dos poeminhas que mais me orgulho de ter escrito e fiquei pasme ao ouvir a pessoa me acusar de plágio!!!

Que saudade da primeira pessoa do plural.

Eram pronomes e verbos que marejavam meus olhos.

Agora, vivo ouvindo um eu não dito

Expressado com gestos silenciosos e repetidos.

Ainda fico me perguntando todas as noites:

- Por que a primeira pessoa do plural

Já não povoa os meus ouvidos!?

Nós, nosso, pra gente, nós dois

Eu e tu, vamos sair, vamos comer, vamos dormir.

Sei que essa pessoa é dita para outra pessoa

E para mim restou apenas o eu não dito.

B. de Sales

Barraca Urbana


No feriado longo de carnaval, fiquei em casa, não saí. Comprei suprimentos: bananas, bolacha, salada de frutas, água e outras tantas bobagens. Construí, então, uma barraca de lençóis em cima de minha cama e lá fiquei, só de cueca!!!
O lugar era como minha fortaleza, ninguém sabia que eu estava lá , sentia-me seguro. na minha barraca montada em um quarto de pensionato no centro da grande Belém. Só saía para pegar suprimentos no frigobar e usar o banheiro, mas cada saída furtiva era uma aventura, tinha de me livrar dos inimigos e das armadilhas da floresta selvagem que me cercava.
Passado o carnaval, voltei a ser o arremedo de filósofo e me pus a pensar no caso e as admoestações de meu inconsciente me disseram que a "síndrome do Peter Pan" me havia pegado de jeito, afinal, um homem de 31 anos brincando de barraquinha de lençóis não é muito comum.
A barraca ficou montada até hoje pela manhã, quando resolvi lavar os lençóis. Só espero não querer montá-la de novo, vou refletir mais sobre isso.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Um dia comum

Hoje estava bem quente aqui em Belém, como sempre, à tarde a cidade ficou nublada e, agora, à noite, choveu um pouco e está um clime bem agradável.
Estou em casa tentando ler algumas coisas sobre metafísica, pensando em como me firmar como profissional, no mestrado que pretendo fazer, apeensivo quanto ao estágio probatório na UFPa que só termina em 2011 e está me impedindo verticalizar minha formação...
Isso tudo me deixou um pouco underground. Vou assistir ao filme francês "O fabuloso destino de Amélie Poulain", perdi a conta das vezes que vi esse filme.
Estou com muita vontade de sair aqui de Belém, sei lá, talvez se eu passar em um concurso em outro Estado... essa finitude que aflige o homem (quando ele se dá conta dela, é claro) tem me feito parecer um louco, quero alcançar tudo, nas não dá.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Amor e Ódio



Poema do adeus

Braços, pernas, línguas e corpos.
Não se cruzaram, não se tocaram, não se fundiram.
Já se esqueceram, não conheceram a volúpia e o orgasmo.
E o “não era pra ser”, não serve de consolo
Para alguém saturado dos “não era pra ser”.

Acho que é o deus ex-machina com seu dedo
Mexendo nas peças deste meu destino
Retira o que é bom, exclui o prazer,
Põe a mesmice e o tédio nos dias.

E agora meu bem?! O que devo dizer?!
Suplicar outra chance? Jurar lealdade?
Ou simplesmente emitir os lugares-comuns
Que ferem minh’alma só de pensar em dizer

Não, nada disso mudaria o destino
Tampouco a vontade do deus ex-machina
Que mexe nas peças e muda o destino
E transforma minh’alma na mesmice da vida,

Devo, agora, fazer o que todos fariam.
Enxugar minhas lágrimas, arrumar o cabelo
Dizer logo adeus, dar-lhe um beijo no rosto
E fingir que não vou chorar, morrer, mas convalescer.
B. de Sales

Devaneio de criança





Um pouco de loucura


Navego nos mares nostálgicos da vida.

Saudoso, retorno à infância não vivida,

Entediado, lanço-me a um futuro hipotético,

Mas invariavelmente caio num choro patético.

Queria não ser o que fui num tempo “besta”

Talvez ser ilegal na hipócrita sociedade legal,

Ou morar nas páginas de um gibi de aventura,

Viver nas cores de bolinhas de sabão.

Tão efêmeras quanto a minha vida.

Tento ser adulto com uma lacuna na infância.

Eterno até que a morte me cuspa do tempo.

B. de Sales







Ross e a metafísica aristotélica


Como Ross apresenta a metafísica – ciência universal (p. 3 do livro de Ross, cap. 1 do livro I da Metafísica)
O comentário de Ross acerca da metafísica de Aristóteles, essa busca pelo todo, a verdadeira sabedoria; perpassa por alguns pressupostos epistemológicos que permitem com que o filósofo chegue até esse um que tudo une, esse universal que se manifesta apenas no plano do pensamento, e esses elementos são enumerados na seguinte ordem, qual seja: os sentidos, a memória, a experiência, a qual é a ponte para se chegar à unidade do ser - a substância.
Para Ross, bem como para Aristóteles, uma metafísica é possível, essa luz que permite ver o sentido secreto de todas as coisas, o algo que não é visível, imaterial, inalienável e só pode ser alcançado por meio do dístico sentir/lembrar gerador da memória, pois somente é possível conhecer a partir de um sistema de representações que geram empiria e, por conseguinte o puro conhecimento das causas.
Com efeito, conhecer é representar, tudo o que cerca o homem faz parte de uma cadeia simbólica que já está pronta antes mesmo de ele nascer, e essas representações simbólicas sempre dizem algo, dessa forma, o homem pode aceitar a cadeia de representação já posta a ele, ou construir o seu mundo significativo, o fato é que aceitando a cadeia já existente, ou criando outra cadeia de representação, invariavelmente a equação sentir →lembrar = memória é a condição sine qua non para gerar experiência, pois só é possível pensar nos objetos separados e depois reuni-los, gerando a empiria, por meio da lembrança, uma vez que, em metafísica, tira-se o olhar do objeto e volta-se para a própria alma, um local infinito que é filtrado pelas regras onde reside a experiência motivadora de pensar o exercício do pensar indiferente ao objeto.
Nesse sentido, a metafísica pode ser considerada uma metaciência, pois elimina as notas comuns para se chegar à causa primeira, à sabedoria; abstrai as diferenças e fica com a causa, o universal, o que mais se afasta dos sentidos, ou seja, dos objetos e, por extensão, volta-se para a luz que ilumina os objetos.
Assim é a metafísica apresentada por Ross, um campo do conhecimento que possui um modo particular de pensar, um segmento do saber que se restringe à função dos conceitos, às primeiras causas e primeiros princípios, pois o que interessa é a universalidade absoluta dos conceitos que culmina com a chegada à unidade do ser que Aristóteles chama de substância, uma unidade que não admite predicação, que não pode ser pensada, analisada, pois é auto-referente e supra-sensível.
B. de Sales

Comentário do Romance "Órfãos de Eldorado" de Milton Hatoum


A novela de Milton Hatoum, Órfãos do Eldorado, é um exemplo de boa literatura amazônida, um texto simples de ser entendido, mas com a complexidade das relações humanas subjacente nos personagens. A presente obra possui um misto de regionalismo e universalismo latente nas páginas, pois ao mesmo tempo em que o narrador relata o fato histórico do final do ciclo da borracha na Amazônia, ele discorre também sobre as lendas em cuja uma delas – a lenda da cidade encantada no fundo do rio- é o “fio de Ariadne” que percorre toda a narrativa e conduz o leitor para mais perto daquilo que povoa o imaginário coletivo do povo dessa região. Sem parecer clichê, os dramas universais que se abatem sobre cada personagem são apresentados de forma sutil, mas com muita ardilosidade, profundidade e agudez que consegue ferir, como um dardo, o leitor desavisado da qualidade do texto.

A narrativa possui um enredo alinear – tempo psicológico –, uma vez que é o personagem principal, Arminto Clodorvil, quem conta a história “Conto o que a memória alcança, com paciência”(p.10)

O início da narrativa apresenta um “herói” decadente, inseguro, instável que destoa um pouco da figura de herói apresentada por Vladimir Propp. Sua busca parece ter sido em vão, não conseguiu encontrar o que procurava. As ausências do passado ainda se abatem sobre ele: ausência do pai em vida e depois de falecido; ausência da mãe que não conheceu; ausência de Floripa sua ama amante; ausência de Dinaura, seu grande amor; ausência de razão, já que a emoção foi a sua parceira e motivo de sua ruína.

A interdição elencada por Propp, a qual deve ocorrer no início, está diluída por quase toda obra, na voz não dita pelo pai, na fala de Floripa e na de Estiliano, os quais advertem de um perigo em potencial e iminente. Entretanto o agressor não se constitui em um ser materializado e é justamente esse dado que aproxima Órfãos de Eldorado das novelas Kafkafianas, a ausência de algo que persegue, atormenta, o herói, um anti-herói desconhecido e que não se revela nunca: a linguagem, a não comunicação entre os personagens Amando e Arminto; Arminto e Dinaura, por exemplo.

Com efeito, não creio, que Dinaura possa ser o tal agressor citado por Propp, mas ela é o divisor de águas na narrativa em si, juntamente com a morte do pai de Arminto. Esse dado desequilibra a vida do herói que nunca consegue restabelecer a harmonia, fato que se percebe no início da novela, quando Arminto, decadente, começa a falar de suas lembranças. A partir de então o deslocamento presente, o que deveria ser o apelo para que o herói saísse de um lugar e fosse para outro, acaba deslocando Arminto por várias cidades, sem contudo ter o objetivo de restabelecer a harmonia inicial que, diga-se de passagem, nem era tão harmônica assim, uma vez que o objeto perdido motivador de uma empresa reparadora já atormentava Arminto desde o início. O herói esperava por algo que não tinha, mas não sabia o que era: “Eu esperava alguma coisa, sem saber o quê.”

Dessa forma, ele se dá a missão de buscar o objeto perdido que ele acredita ser Dinaura, mas que pela estrutura apresentada por Propp ela seria o elemento anti-herói que provocou o desequilíbrio na vida d herói.

Nesse ponto, surge a figura do doador, materializada em Estiliano, o qual aconselha Arminto para as suas futuras tomadas de decisão, mas este é indiferente ao doador, embora busque por Dinaura, não se dedica a essa missão com afinco, cuida, sim de gastar tudo o que herdou, numa atitude de revolta contra o pai, mesmo depois de ele já ter falecido, e somente quando está sem nada a luta com o desconhecido chega, mas o herói não vence, pois não sabe com que ou quem luta: com sentimentos de carência que o acompanham desde a infância, com um amor ardiloso que fugiu depois da primeira noite, com o seu passado, com a sua inutilidade no mundo?

Frente a frete com Dinaura, na hora da luta, o desconhecido se apresenta – a falta de linguagem – e novamente o herói fica sem respostas, fica sem saber o porquê, pois não há comunicação, não há perguntas nem respostas.

O herói, então, volta a sua vida e ela não muda. Ele continua um filho de um barão da borracha sem nada, a única coisa que possui é a presença esporádica de Floripa. E seus dias são infelizes e cheios de saudosismo, o rio é seu objeto de contemplação. único que não lhe deixou órfão em uma cidade de órfãos. E o sentimento de perda de algo típico dos órfãos se assola: Armando órfão de um amor; Estiliano, órfão de um amigo; Floripa, órfã de Arminto; Arminto órfão de pai e mãe e de Dinaura. E todas essa sensação de falta permeia a cidade dos órfãos, dos Órfãos de Eldorado.

Por B. de Sales

Despedida

"Ainda que dentro de mim as águas apodreçam e se encham de lama e ventos ocasionais depositem peixes mortos pelas margens e todos os avisos se façam presentes nas asas das borboletas e nas folhas dos plátanos que devem estar perdendo folhas lá bem ao sul e ainda que você me sacuda e diga que me ama e que precisa de mim: ainda assim não sentirei o cheiro podre das águas e meus pés não se sujarão na lama e meus olhos não verão as carcaças entreabertas em vermes nas margens, ainda assim eu matarei as borboletas e cuspirei nas folhas amareladas dos plátanos e afastarei você com o gesto mais duro que conseguir e direi duramente que seu amor não me toca nem me comove e que sua precisão de mim não passa de fome e que você me devoraria como eu devoraria você ah se ousássemos." Caio Fernando Abreu

Eu queria que fosse assim a minha despedida, mas ele foi sem ao menos considerar que eu merecia uma despedida. Seria muito ele catar um trecho de um livro do Caio Fernando Abreu.